O que muda na economia brasileira com Flávio Bolsonaro eleito?
A reação dos mercados pode ser imediata, mas o programa do candidato aponta para algo mais complexo do que um simples governo liberal: um Estado concedente, fiscalmente mais duro e dependente de capital privado. O resultado será definido menos pela lista de promessas e mais pela ordem em que elas forem executadas.
Uma eleição muda o preço do futuro antes de mudar a realidade do presente. Essa diferença ajuda a entender o que provavelmente aconteceria com a economia brasileira caso Flávio Bolsonaro vença o segundo turno de 25 de outubro.
O primeiro efeito não apareceria no supermercado, no contracheque ou na parcela do financiamento. Apareceria nas telas: dólar, Bolsa, juros futuros e ações de empresas mais expostas à economia doméstica. O mercado financeiro tentaria antecipar um governo percebido como mais favorável ao controle de gastos, às privatizações, às concessões e à redução da carga tributária.
Mas a economia que o próximo presidente receberá é bem mais ambígua do que sugerem os discursos de campanha.
O desemprego está em 5,3%, o menor nível já registrado para um trimestre encerrado em agosto, e o país criou mais de 1,13 milhão de empregos formais nos oito primeiros meses de 2026. O Produto Interno Bruto cresceu 0,5% no segundo trimestre. Ao mesmo tempo, as projeções apontam expansão de apenas 1,83% neste ano e 1,32% em 2027. A inflação esperada para 2026 está em 5,22%, a taxa Selic permanece em 13,75% e a dívida bruta chegou a 82,9% do PIB.
Não é uma economia em colapso. Também não é uma economia em equilíbrio. O mercado de trabalho ainda resiste, mas o custo do dinheiro, a inflação e a dívida pública limitam o investimento e reduzem o espaço de ação do governo.
Para compreender o que mudaria com Flávio Bolsonaro, é preciso separar quatro relógios que costumam ser confundidos: o relógio do mercado, o do crédito, o das contas públicas e o da produtividade.
A reação dos mercados é o primeiro relógio
Uma pesquisa realizada pelo Citi com 73 participantes do mercado financeiro mostrou que 97,3% esperavam alguma alta da Bolsa em caso de vitória de Flávio. Quase metade projetava avanço superior a 5% já no primeiro pregão. Entre os entrevistados, 78,1% esperavam valorização do real entre 2% e 5%, enquanto 54,9% projetavam queda de 0,5 a 1 ponto percentual nos juros futuros para janeiro de 2029.
Esses números não são uma previsão do banco, mas revelam o posicionamento predominante entre investidores.
Parte dessa expectativa já foi incorporada aos preços. No último pregão antes da votação, o dólar fechou a R$ 4,993 e o Ibovespa chegou aos 205.083 pontos. Uma vitória de Flávio ainda poderia provocar um movimento relevante, mas também abriria espaço para realização de lucros caso a alta recente já tenha antecipado parte do resultado.
O provável movimento inicial seria favorável às empresas mais dependentes da economia brasileira, como construtoras, incorporadoras, varejistas, empresas de infraestrutura e negócios altamente sensíveis aos juros. Companhias com dívidas elevadas também poderiam se beneficiar da redução do custo de capital.
Já os exportadores teriam uma equação mais complexa. Um real mais forte reduz o valor, em moeda nacional, das receitas obtidas em dólares. Indústrias protegidas por tarifas de importação também poderiam enfrentar maior concorrência se o novo governo avançasse com a abertura comercial prometida.
A Bolsa, portanto, poderia subir como um todo, mas os efeitos dentro dela seriam bastante desiguais.
Juros menores são o segundo relógio
A taxa Selic não cairia por ordem presidencial. O Banco Central possui autonomia, e seu presidente tem mandato até o fim de 2028. Mesmo com uma mudança de governo, o ritmo dos cortes continuaria condicionado à inflação, às expectativas e ao comportamento das contas públicas.
O Banco Central estima uma probabilidade de 90% de a inflação de 2026 ultrapassar o limite superior da meta. Isso reduz a possibilidade de uma aceleração imediata do ciclo de cortes apenas porque o mercado recebeu bem o resultado eleitoral.
Uma vitória de Flávio poderia, no entanto, derrubar os juros de longo prazo antes da Selic. Essa parte da curva depende fortemente da confiança de que a dívida será estabilizada. Juros futuros menores reduzem o custo de financiamento das empresas, melhoram a avaliação de projetos e facilitam emissões de títulos. O efeito chega primeiro ao mercado de capitais e somente depois aos empréstimos bancários.
Existe ainda um obstáculo pouco discutido: muitas famílias brasileiras não têm apenas um problema de juros altos. Têm um problema de balanço patrimonial.
A inadimplência das famílias no crédito livre atingiu 8% em agosto, o maior nível da série iniciada em 2011. Para uma parcela relevante da população, a prioridade não é tomar um novo empréstimo, mas reorganizar dívidas antigas, reduzir parcelas e recuperar capacidade de pagamento.
Por isso, uma valorização do real pode alcançar o consumidor antes de uma queda relevante no crédito. Medicamentos, eletrônicos, combustíveis e outros produtos sujeitos ao câmbio podem responder gradualmente à moeda mais forte. Já os juros do cartão, do cheque especial e dos empréstimos pessoais dependem também da inadimplência, dos custos bancários e do risco de cada cliente.
A segunda-feira após a eleição pode mudar a cotação do dólar. Dificilmente mudará a fatura do cartão.
Ajuste fiscal e a matemática do Congresso são o terceiro relógio
O centro econômico do programa de Flávio Bolsonaro é a tentativa de estabilizar a dívida pública.
O plano registrado no Tribunal Superior Eleitoral promete uma nova regra fiscal, superávits primários, limitação do crédito subsidiado pelo Tesouro e controle das despesas discricionárias dos três Poderes. Também prevê o corte de pelo menos dez ministérios, redução de cargos comissionados, combate aos supersalários e retomada do Programa Nacional de Desestatização.
A campanha também passou a falar em um ajuste próximo de R$ 200 bilhões, mas ainda não apresentou um mapa detalhado das despesas que seriam reduzidas.
Esse detalhe é decisivo. Cortar ministérios produz uma imagem política forte, mas não resolve sozinho o problema fiscal. A maior parte das despesas federais está vinculada a obrigações legais, previdenciárias, sociais, salariais ou constitucionais. O próprio programa de Flávio promete preservar os programas sociais existentes.
O verdadeiro ajuste exigiria decisões mais difíceis: rever subsídios, benefícios tributários, regras de crescimento das despesas obrigatórias, carreiras públicas e programas com baixa efetividade. Cada uma dessas medidas possui um grupo organizado disposto a impedir a mudança.
Flávio chegaria ao governo com uma vantagem política considerável. O PL terá a maior bancada da Câmara, com 121 deputados, e a maior do Senado, com 28 integrantes. Ainda assim, esses números estão longe de permitir que o partido governe sozinho. Uma proposta de emenda constitucional exige 308 votos na Câmara e 49 no Senado.
Isso significa que o centro político continuaria sendo coautor da política econômica. A bancada de Flávio poderia liderar a agenda, mas não teria força para impor integralmente uma reforma administrativa, tributária ou previdenciária.
Há uma razão financeira para o ajuste fiscal ser mais importante do que o corte nominal de qualquer ministério. Com dívida bruta próxima de 83% do PIB, uma redução permanente de 1 ponto percentual no custo médio dessa dívida representa, quando totalmente transmitida, uma economia potencial da ordem de 0,8% do PIB por ano. Trata-se de uma conta estática, não de uma previsão, mas ela mostra a dimensão do mecanismo.
Credibilidade fiscal reduz os juros. Juros menores reduzem o custo da dívida. Uma dívida mais controlada reduz novamente os juros. Esse é o círculo virtuoso que o programa tenta iniciar.
O círculo também pode funcionar ao contrário. Se o governo reduzir impostos antes de cortar despesas, ampliar financiamentos subsidiados antes de estabilizar a dívida ou anunciar grandes investimentos sem explicar as garantias envolvidas, a confiança inicial pode desaparecer rapidamente.
Por isso, a questão central de um eventual governo Flávio Bolsonaro não seria a lista de medidas. Seria a ordem das operações.
Produtividade não responde a discursos e podem ser o quarto relógio
O plano de Flávio estabelece uma meta de crescimento sustentado de 4% ao ano durante a próxima década. Para chegar perto disso, o programa promete mobilizar R$ 900 bilhões em quatro anos para rodovias, ferrovias, portos, aeroportos e hidrovias.
O número equivale a R$ 225 bilhões por ano, aproximadamente 1,7% do PIB atual. É importante, porém, não interpretar esse valor como uma promessa de gasto direto do Orçamento.
A estratégia declarada se apoia na iniciativa privada, em concessões, parcerias público-privadas, financiamentos do BNDES para obras no Brasil e um fundo lastreado na securitização de imóveis e outros ativos da União.
Esse desenho revela uma característica que pode definir o modelo econômico de Flávio Bolsonaro. Não se trata exatamente de um Estado mínimo. O que aparece no programa é um Estado concedente: menor como operador direto, mas muito ativo na estruturação de contratos, projetos, garantias, financiamentos e marcos regulatórios.
Se funcionar, esse modelo pode atrair capital privado e acelerar obras sem transferir toda a conta para o Tesouro. Se for mal executado, pode produzir garantias ocultas, tarifas mal calculadas, projetos escolhidos por influência política e passivos que somente aparecem nas contas públicas anos depois.
O principal gargalo também não será necessariamente a falta de dinheiro. Bons projetos exigem estudos de demanda, licenciamento, engenharia, segurança jurídica e uma distribuição clara dos riscos. Uma lista de obras politicamente atraente não é o mesmo que uma carteira financiável.
A qualidade dos R$ 900 bilhões será mais importante do que o próprio número.
Mudanças na população
O fim das bets (ainda no governo Lula) pode mudar o comportamento de muitos brasileiros. Talvez as operações com criptomoedas estejam já aumentando devido ao final das operações de azar com casas de apostas.
Outras plataformas comuns de serem usadas nesses casos são as de opções binárias como a Quotex, que atualmente opera com novo endereço.
Porém, para operar é necessário estar em uma jurisdição que permita.
Até mesmo em lugares bem distantes como Turquia, a Quotex costuma ser bastante popular e representa bem esse “apetite ao risco” de investidores.
A reforma tributária dificilmente voltaria à estaca zero
O programa de Flávio promete revisar e redimensionar a reforma tributária, reduzir a alíquota do IVA, preservar a não cumulatividade e diminuir as exceções concedidas a setores específicos.
A reforma, porém, já começou.
Em 2026, empresas passaram pelo ano de teste da CBS e do IBS. Em 2027, começa a cobrança da CBS, PIS e Cofins são extintos, o IPI é reduzido na maior parte dos produtos e entra em vigor o Imposto Seletivo. Empresas investiram em sistemas, contratos, treinamento e adaptação de preços.
Desmontar toda a arquitetura geraria um novo custo de transição e exigiria mudanças constitucionais. O mais provável seria uma renegociação da implementação, não o abandono do modelo.
Um eventual governo Flávio poderia rever exceções, fundos de compensação, regras de crédito, devoluções, alíquotas setoriais e o alcance do Imposto Seletivo. Poderia também tentar reduzir a alíquota de referência.
Mas a matemática tributária não desaparece com a eleição. Para reduzir a alíquota geral sem perder arrecadação, o governo teria de eliminar benefícios, ampliar a base de contribuintes, cortar despesas em valor equivalente ou aceitar um déficit maior.
A opção economicamente mais coerente seria reduzir exceções. Politicamente, seria a mais difícil. O novo governo teria de enfrentar não apenas a oposição, mas também empresas, estados, municípios e grupos aliados beneficiados pelos tratamentos especiais atuais.
Essa talvez seja a primeira grande contradição de um governo apresentado como favorável ao setor privado: ele poderia ser positivo para as empresas em conjunto, mas bastante duro com negócios que dependem de proteção tributária, barreiras comerciais ou crédito subsidiado.
A redução da jornada já está na Constituição
Outra mudança econômica já contratada é a redução da jornada semanal.
A Emenda Constitucional 141, promulgada em 16 de outubro, estabelece dois dias de repouso semanal remunerado, reduz a jornada máxima para 42 horas a partir de 16 de dezembro de 2026 e para 40 horas a partir de 16 de dezembro de 2027, sem redução salarial.
O programa de Flávio defende jornadas flexíveis e a prevalência do negociado sobre o legislado. A tendência, caso ele vença, não seria uma revogação rápida da emenda. Isso exigiria uma nova maioria constitucional e criaria um conflito político logo no início do mandato.
A disputa provável estaria na regulamentação. A própria emenda permite regimes diferenciados, acordos coletivos e medidas de transição para micro e pequenas empresas. Um governo Flávio tenderia a ampliar esse espaço, oferecendo maior flexibilidade para setores com funcionamento contínuo, comércio, hotelaria, restaurantes, logística e serviços de saúde.
Para as empresas intensivas em mão de obra, essa transição pode ser tão relevante quanto a reforma tributária. Negócios produtivos poderão reorganizar turnos, automatizar tarefas e diluir custos. Empresas de margens estreitas poderão reduzir horários, aumentar preços, recorrer à informalidade ou adiar contratações.
O resultado dependerá menos da discussão ideológica sobre a jornada e mais da capacidade de elevar a produtividade de cada hora trabalhada.
O poder econômico silencioso das nomeações
Há outro instrumento que costuma receber menos atenção do que o Ministério da Fazenda.
Caso determinadas vagas permaneçam abertas, o presidente eleito poderá participar da escolha de até 45 dirigentes de agências e órgãos reguladores e de 12 integrantes de tribunais superiores até o fim de 2027. Entre os postos estão diretorias do Banco Central, cargos no Cade e vagas na Comissão de Valores Mobiliários.
Essas indicações dependem do Senado e não eliminam a autonomia das instituições. Ainda assim, podem alterar durante anos a orientação regulatória de setores como energia, transportes, telecomunicações, bancos e mercado de capitais.
Uma decisão do Cade pode mudar a estrutura competitiva de uma indústria. Uma regra da CVM pode facilitar ou encarecer o financiamento de empresas. A composição gradual do Banco Central influencia a leitura sobre inflação, estabilidade financeira e juros.
Essa talvez seja uma das mudanças econômicas mais profundas de um eventual governo Flávio e, ao mesmo tempo, uma das menos visíveis para o público.
Quem provavelmente ganharia e quem ficaria sob pressão
Uma vitória de Flávio tenderia a favorecer, ao menos inicialmente, empresas ligadas à infraestrutura, concessões, construção, logística, gás natural e serviços financeiros. Negócios dependentes de crédito de longo prazo também poderiam se beneficiar da redução dos juros futuros.
A abertura para bens de capital e insumos importados ajudaria indústrias que precisam modernizar equipamentos. Um real mais valorizado reduziria o custo dessas importações.
A pressão recairia sobre setores dependentes de benefícios fiscais, proteção tarifária ou crédito subsidiado. Empresas exportadoras poderiam enfrentar margens menores com a valorização do real. Serviços intensivos em mão de obra teriam de absorver a redução da jornada. Indústrias pouco competitivas seriam expostas a uma concorrência maior.
A divisão econômica mais relevante não seria simplesmente entre empresários e trabalhadores, ou entre Estado e mercado. Seria entre empresas produtivas e empresas protegidas; entre projetos capazes de atrair capital por mérito próprio e projetos dependentes de garantias públicas; entre negócios preparados para competir e negócios organizados em torno de exceções.
O teste dos primeiros cem dias
Os primeiros cem dias indicariam se a reação positiva do mercado possui fundamento.
A escolha do ministro da Fazenda seria apenas o começo. Investidores procurariam uma proposta concreta de regra fiscal, um mapa verificável de redução de despesas, um calendário para a reforma tributária, uma carteira de concessões pronta para execução e uma coalizão parlamentar capaz de aprovar as medidas.
Um ajuste fiscal relevante também pode desacelerar a economia no início do mandato. Menos gasto público significa menos demanda no curto prazo. O efeito positivo viria depois, caso a queda dos juros e o aumento do investimento privado compensassem a retirada do estímulo estatal.
Por isso, um 2027 mais austero poderia apresentar crescimento inicialmente modesto, mesmo que a estratégia melhorasse as perspectivas para os anos seguintes. Esse intervalo entre o custo imediato e o benefício futuro seria um dos maiores riscos políticos do novo governo.
A vitória de Flávio Bolsonaro provavelmente reduziria o prêmio de risco do Brasil, fortaleceria o real e melhoraria os preços dos ativos. Nada disso, sozinho, garantiria crescimento de 4%, inflação controlada ou aumento duradouro da renda.
O mercado compraria a intenção na primeira segunda-feira. A economia real cobraria a ordem das operações durante os quatro anos seguintes.

